Sempre acreditei na importância da moral cristã, mais precisamente, judaico-cristã, onde a figura humana é a imagem e semelhança de Deus.
Segundo minha fé juvenil de então, Cristo veio para reforçar essa crença e definir o amor, o respeito e a dignidade humana como regras sociais definitivas e agregadoras.
Por isso nunca assimilei com naturalidade a separação abrupta de meu amigo Moisés, em nome de uma crença que deveria respeitar todas as outras.
Moisés tinha jeito de menino, mas era enorme, grandalhão, com um vozeirão forte e gostava de cantar. Aprendemos a tocar violão juntos e toda sexta feira saíamos a fazer serestas sob as janelas de nossas amigas amadas.
Numa manhã ensolarada de primavera, eu e meu amigo matamos aula. Raramente fazíamos isso, mas nesse dia precisávamos mesmo conversar. Ele me confidenciara que tinha um assunto sério para tratar.
Fugimos para o Horto Florestal. Era uma manhã primaveril, fresca, céu azul, sem uma única nuvem e o sol iluminando as copas das árvores. Seguimos pelas alamedas desertas. Era uma segunda feira, o parque estava deserto, a não ser por alguns atletas madrugadores, a caminharem entre as árvores frondosas e floridas. Atravessamos uma pequena ponte de madeira para uma das ilhotas que enfeitam o lago. Sentamos num velho banco de madeira, com armações de ferro, muito antigo que ficava muito próximo da água que quase tocava nossos pés.
Conversávamos sobre nossas vidas, sobre o movimento estudantil que fervilhava à época, sobre nossos sonhos e planos para o futuro.
“– E então, Moisés. Qual é o problema?”
‘- Amigo. Tenho um segredo para lhe confessar que é também uma puta encrenca” - começou Moisés, com seu vozeirão grave, olhando para o chão, remexendo distraidamente as pedrinhas na beira do lago quieto.
“- Eu estou apaixonado pela Sandra”.
“- Pô, que legal. Não sei por que isso é um problema, Moisés. Parece que ela gosta também de você”.
“- É, eu sei.”
“- Então, qual é o problema?
“- Ela é católica e eu, judeu”.
“- E aí? Hoje em dia não tem mais esse negócio de religião a impedir que as pessoas se relacionem. Vai em frente.”
“– Não é verdade. Meus pais se importam com isso. Eu vou lhe falar, mas não quero que você se ofenda. Eles ficam furiosos com nossa amizade. Quando você vai lá em casa eles ficam reclamando o tempo inteiro. Não querem mais que a gente toque violão nem que cantemos nossas músicas. Eles não querem que eu tenha vínculos emocionais com quem não seja judeu”
“- Mas você tem que dar um desconto. Seus pais são idosos, são judeus tradicionais, foram perseguidos. É natural que se preocupem. Mas você está sendo criado num outro país, com outra cultura e eles vão ter de enfrentar isso. Com o tempo eles vão entender”.
“- Não vão não. Se eles ficam por conta com nossa amizade, imagine quando eu disser que estou namorando a Sandra. Não sei se peço ela em namoro”.
“- Então não diga nada aos seus pais. Peça a Sandra em namoro e depois as coisas vão se acertando...”
“- Não funciona assim. Isso não é fácil. Você não conhece o jeito deles. São duros, têm seus costumes, suas tradições e não querem mudar isso...”
Sexta feira à noite, depois da reunião estudantil, numa sala que servia de sede para nossa associação, nos fundos da igreja católica, saímos eu, Moisés e Sandra para uma seresta. Nossas serestas já eram tradicionais, esperadas e concorridas.
Nessa noite os dois começaram a namorar. Um namoro sério, intenso, cheio de carinho e paixão.
Os pais de Sandra, católicos praticantes, receberam o jovem Moisés com todo carinho e atenção. Sandra estava muito feliz ao seu lado e o tempo foi passando, aparentemente sem maiores transtornos.
Numa quinta feira de verão, quase no final do ano letivo, Moisés convidou-me novamente para um passeio no Horto Florestal. Disse que precisava falar comigo, e lá fomos nós.
Meu amigo parecia preocupado. No caminho, enquanto o velho ônibus sacolejava e a fumaça do motor penetrava pelos buracos do capô, notei no rosto de Moisés uma profunda tristeza. Ele estava quieto. Olhava para frente, num ponto infinito, parecia não estar realmente ali. Pressenti que estava acontecendo algo muito sério em sua vida.
Por fim, à beira do lago, onde havíamos tido a primeira conversa, meu bom amigo Moisés desabou num choro descontrolado e sentido.
“- O que é que houve, cara...”
“- Vou ter de deixar a Sandra, a escola, você e todas as coisas que gosto...”
“- Por quê?”
“- Vamos embora... Para Israel”.
“- Quando? Isso é definitivo?
“- É. Já está tudo acertado
“- E por que você não pode ficar por aqui? Fale com eles. Você pode ficar na minha casa. Eu falo com meus pais...”
“- Eles vão embora por minha causa. Há meses que a gente vem discutindo. Descobriram meu namoro com Sandra, ficaram furiosos, não me querem no movimento estudantil porque é católico e querem que eu estude física nuclear
“- Mas você já vai fazer 17 anos. Eles precisam entender isso...”
“- Não tem jeito. Já pedi, implorei, meu pai adoeceu, minha mãe foi internada duas vezes por causa das nossas discussões. Já está decidido. Eu vou embora com eles... Só queria conversar com você sobre isso, desabafar...”
Queria, naquele momento, entender por que colocamos Deus como eterno empecilho aos nossos sonhos e não como um aliado?
No final de dezembro Moisés e seus pais se foram para Israel, sem despedidas, sem qualquer esperança de retorno.
Durante os anos seguintes não tivemos mais noticias suas.
A verdade é que o bom amigo Moisés deixou para trás a saudade dos amigos, o romantismo das serestas, a garoa do outono, as conversas à beira do lago e, principalmente, o amor da bela Sandra.
Lembro-me que conversei sobre isso diversas vezes com minha namorada, Irene, uma loirinha simpática e meiga, irmã de meu amigo de classe, o Lauro, melhor aluno da turma.
No dia de seu aniversário comprei flores e fui à sua casa.
Apesar do bolo com velinhas, dos amigos e das músicas na vitrola, minha namorada estava meio chorosa e quieta. Ficou assim o tempo todo.
Na hora de ir embora, já no portão tentei beija-la, como sempre fazia.
“- Não. Não faça isso. Eu preciso falar com você uma coisa muito importante”
“- O que é? Será que vou saber agora o que deixou você tão distante esta noite?”
“- É que meu pai não quer mais nosso namoro”.
“- E por que não?
“- Meu pai tem seus hábitos, suas tradições, sua maneira de ver a vida, é todo metódico...”
“- Bem... eu não quero namorar seu pai. Mas, ainda não entendi o que o aborreceu tanto para não querer que eu namore você.”
“- Nós somos metodistas e você é católico. Ele não quer. Disse que nós já fomos longe demais e que esse namoro tem que acabar. Ele acha seus costumes em desacordo com os nossos, essas coisas de religião... Ele tem atormentado minha vida... Eu não posso ir contra a vontade de meu pai...”
Mais uma vez as teorias de Cristo pareciam estar equivocadas, pelo menos diante dos fatos.
Apesar de ter conversado com seu pai, de ter ido a um ou dois cultos religiosos em sua igreja metodista, onde era pastor, não consegui demovê-lo de sua religiosa implicância. O namoro acabou e não voltei a vê-la. Também não procurei saber de sua vida a partir desse dia. Claro que sofri muito e por muitos anos, afinal gostava dela.
Hoje, tanto tempo depois, relembrando essas coisas, ainda procuro respostas: onde será que ela está agora? Será que se casou com alguém de sua religião? Será que é feliz? Será que pensa em mim? Teria dado meu nome a seu filho? E o bom e velho Moisés? Está feliz em Israel? Em quantos projetos bélicos trabalhou como físico nuclear? Teria esquecido Sandra? Será que se casou, teve uma filha e deu-lhe o nome de sua adorada namorada da juventude? E Sandra? Por quanto tempo derramou suas lágrimas apaixonadas até esquecer seu primeiro e grande amor? E Cristo? Será que continua tão incompreendido?